quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Tardelli decide em noite de olhar apaixonado pela massa atleticana

Tardelli decide em noite de olhar apaixonado pela massa atleticana

Herói do título da Copa do Brasil fica encantado com cantoria durante hino nacional: "Nossa minoria fez mais barulho. Chegaram no nosso salão de festas e fizeram festa"

Por Belo Horizonte


Há quem diga que a forma mais genuína de demonstrar amor é através do olhar. Se for verdade, a torcida do Atlético-MG pode ter certeza: Diego Tardelli é completamente apaixonado por ela. A relação vai além dos gols, vai além da entrega em campo, vai além até mesmo do heroísmo na decisão da Copa do Brasil. O camisa 9 do Galo já estava fascinado pela massa antes mesmo de a bola rolar. Durante a execução do hino nacional, não conseguiu esconder o encantamento com o barulho que os pouco menos de 2 mil atleticanos faziam no Mineirão e sorriu seduzido. A declaração veio aos 47 do primeiro tempo, em cabeçada fatal diante de Fábio, como quem diz: "Eu te amo, torcida campeã!".
O relacionamento é antigo, já dura seis anos, mas o caso entre Diego Tardelli e a massa atleticana é daqueles de quem se conquista a cada dia, quem não perde a oportunidade de demonstrar amor. A cena antes do início do jogo é emblemática. Com os jogadores perfilados, os quase 40 mil cruzeirenses cantavam alto, tentavam de todo jeito devolver a pressão que o rival exercera no Horto. Ao menos com Tardelli, não deu certo. O camisa 9 estava surdo para tudo que saísse da garganta de quem não vestia preto e branco. De braços para trás, olhou para a arquibancada, sorriu e falou algo para Leandro Donizete, que vinha logo atrás. Na sequência, Luan ouviu e retrucou também sorridente. 
- Vieram poucos torcedores, mas calaram a torcida do Cruzeiro. Foi engraçado, e falei isso com o Tardelli - disse Luan após o jogo. 
Tardelli, Luan e Leandro Donizete, Cruzeiro x Atlético-mg Copa do Brasil (Foto: Carlos Mota)Tardelli, Leandro Donizete e Luan olham para a torcida durante a execução do hino nacional (Foto: Carlos Mota)

Pronto. Na noite de quarta-feira, Diego Tardelli já estava, mais uma vez, conquistado. Faltava agora dar sua contrapartida neste caso de amor. Com 114 gols marcados com a camisa atleticana, não era difícil imaginar o melhor carinho possível para seus pares. Mesmo com a vantagem do jogo da ida, o Galo se mandava para o ataque e, quase sempre, puxado por Tardelli. Veloz e caindo pelos lados do campo, o atacante era a figura principal de um quarteto insaciável - ao lado de Luan, Dátolo e Carlos. O protagonismo daquela noite, porém, era dele, tinha que ser dele. O coração batia mais forte depois daquela olhadinha, e contra o Cruzeiro costuma ser assim.   
A primeira boa chance surgiu aos 12, mas o chute de primeira no rebote parou na rede pelo lado de fora. Trinta minutos depois, o atacante virou garçom e deixou Maicossuel na frente de Fábio. Mais uma vez, o gol ficou no quase. Aos 47, não teve jeito. Cruzamento de Dátolo, desatenção de Henrique, e gol de Tardelli. Livre, na pequena área, uma cabeçada firme para o fundo das redes. Ainda havia todo o segundo tempo pela frente, mas dava para suspeitar que seria o gol do título. Foi o gol de um carrasco, que marcou seu nono gol em clássicos. 
Uma campanha tão marcante, com viradas sensacionais e vitórias sobre os inimigos Flamengo e Cruzeiro, não poderia terminar sem gol de Tardelli. O atacante entrou em campo zerado na Copa do Brasil, como se tivesse deixado para balançar a rede exatamente no momento que o colocaria na eternidade. Na semana da decisão, chegou a dizer que o título sobre o principal rival teria peso maior do que a Libertadores. Tardelli tinha consigo mesmo a obrigação de não passar em branco.   
 Eram 30 mil e não sei quantos do Cruzeiro, e nossa minoria fez mais barulho. Nossa torcida é fantástica. Eles chegaram aqui no nosso salão de festas e fizeram a festa
Diego Tardelli, apaixonado pelo Galo
No segundo tempo, foi ao seu limite. Com a larga vantagem, tratou de segurar a bola no campo de ataque, partir para cima dos zagueiros e catimbar quando necessário. Estava tão confiante que ousou até cobrar faltas. Dátolo e Rafael Carioca pararam na bola, conversaram baixinho, até que Tardelli chegou imponente: "Deixa que eu bato". O chute parou na barreira. A essa altura, as câimbras já incomodavam. Em uma cobrança de escanteio, abraçou a trave e alongou a panturrilha uma, duas, três vezes. Antes de a bola ser alçada na área, olhou feio para o árbitro auxiliar reclamando de agarrão de Willian Farias. As pernas pareciam já não obedecer mais.   
Após cada arrancada mais forte, era só a bola dar uma parada para Tardelli desabar no chão. Os músculos estavam no limite, mas ele não queria sair, queria viver cada segundo daquela que talvez tenha sido a noite mais marcante do seu casamento com o Galo. A expulsão de Leandro Donizete, entretanto, deixou Levir sem opção. Foi até melhor. Ao deixar o gramado para dar lugar a Eduardo, o camisa 9 foi ovacionado pela pequena e barulhenta massa. Os gritos de incentivo que o encantaram quase 90 minutos antes, agora tinham seu nome: "Taaaaar-deeeeel-liiii! Gol! Gol". Nessa hora, deve ter pensado: "Eles também me amam", como se fosse possível duvidar. 
Mosaico - Herói Tardelli vai ao limite físico e decide Copa do Brasil para o Galo (Foto: Editoria de Arte)Herói, Tardelli vai ao limite físico e decide Copa do Brasil para o Atlético-MGo (Foto: Editoria de Arte)

Ao apito final, a reação era inevitável: correr para aquele lado que ele tanto tinha olhado e abraçar a massa. O que passou pela cabeça durante o hino nacional, ele mesmo conta:   
- Eram 30 mil e não sei quantos do Cruzeiro, e nossa minoria fez mais barulho. Nossa torcida é fantástica. Eles chegaram aqui no nosso salão de festas e fizeram a festa.   
A Copa do Brasil foi o quinto título de Diego Tardelli desde que se apaixonou pela primeira vez pelo Atlético-MG. Depois de dois estaduais, uma Libertadores e uma Recopa, era necessário uma conquista nacional. E o atacante não tem dúvidas em afirmar que esta foi incontestável.
- Nossa trajetória foi maravilhosa, desde o primeiro jogo até a final. Sempre nos superamos, nos motivamos, tivemos o espírito de cada jogo. Revertemos situações que para muita gente eram impossíveis, mas não para o Atlético-MG. Para o Atlético-MG, o impossível não existe nunca. O que apresentamos foi bonito. O time se doando, se entregando na marcação. Foi assim a Copa do Brasil inteira. Se tinha um time que merecia essa Copa do Brasil, era o Atlético-MG. 
Merecido. Assim como Diego Tardelli e a torcida do Atlético-MG se merecem. O caso de amor entre eles não deixa a menor dúvida disso, está claro no olhar. 

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